A pacata diaspora iraniana, por Samy Adghirni


A pacata diaspora iraniana, por Samy Adghirni

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Numa recente folga, viajei até o interior da Alemanha para farrear com amigos de infância num conhecido festival de música. Ao fazer o check-in no hotel, reconheci imediatamente o sotaque do tiozinho na recepção. “Shomá iraní hastíd?” – o senhor é iraniano?

Era o dono do estabelecimento. Um senhor baixinho e falador em seus 50 e muitos anos. Ao ouvir a conversa, uma simpática e elegante senhora, uma década mais moça, apareceu para saber com quem o marido estava papeando em farsi.

Moram na Alemanha há três décadas. Ela vai a Teerã uma vez por ano para visitar a mãe que, por um curioso acaso, mora perto da minha casa. Ele detesta ir ao Irã. Acha o regime pavoroso e não suporta a intromissão da religião na política. Mas cede à pressão da mulher para acompanhá-la de vez em quando. O casal possui dois hoteizinhos. Os filhos se formaram em boas universidades locais. Todo mundo tem cidadania alemã.

São um típico exemplo da diáspora iraniana que se espalha no mundo inteiro. Comunidade tranquila, trabalhadora e bem integrada.

Destoando de sua má imagem internacional, o Irã é um grande exportador de pessoas prósperas e instruídas. Muitas abandonaram o país por razões políticas e religiosas. Outras saíram em busca de melhores salários e condições de vida. O Irã é um dos recordistas mundiais em fuga de cérebros, o fenômeno pelo qual um país é desertado de seus melhores quadros, gerando graves consequências sociais e econômicas. Ao menos 150 mil iranianos com alta qualificação se mudam para o exterior a cada ano, segundo admitiu recentemente o ministro da Ciência e Tecnologia, Reza Faraji Dana. Um quarto dos iranianos com curso superior moram em países ricos.

Existem ao menos quatro milhões de iranianos residentes no exterior. Metade encontra-se na América do Norte. A maior comunidade vive nos EUA, mais precisamente em Los Angeles, apelidada de Tehrangeles.

Muitas famílias iranianas migraram para os EUA para fugir da Revolução Islâmica, em 1979, incluindo membros das minorias judaica e bahá’í. Neste grupo havia muitos médicos, engenheiros, professores e cientistas. Mas na época do xá também houve fuga de oposicionistas. O atual chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, foi morar na Califórnia quando adolescente para escapar da ditadura Pahlavi.

De geração em geração, a comunidade de descendência iraniana nos EUA se tornou uma das minorias mais bem sucedidas do país. O fundador do site e-Bay é o bilionário Pierre Omidyar. O número dois da Google foi Omid Kordestani. Salar Kamangar comandou o site Youtube. A Nasa está cheia de iranianos e descendentes, entre os quais o jovem prodígio Babak Ferdowsi, que comandou à distância a aterrissagem do jipe-robô em Marte, há dois anos. O economista Nouriel Roubini, famoso por ter antecipado a crise americana de 2008, é filho de judeus iranianos e fala farsi. A superestrela da CNN Christiane Amanpour é cidadã iraniana. O pai do ex-tenista André Agassi era boxeador da seleção olímpica iraniana. Os DJs da dupla Deep Dish são nascidos no Irã. O genro do secretário de Estado, John Kerry, é um respeitadíssimo neurocirurgião iraniano.

Na Europa, iranianos estão presentes nas melhores universidades, incluindo escolas politécnicas. Há muitas famílias do Irã morando nos distritos 15 e 16 de Paris, entre os mais caros da capital francesa. O estereótipo do iraniano parisiense é uma pessoa refinada e erudita. Na Alemanha, iranianos desfrutam de uma imagem melhor que a de turcos e árabes. Suécia, Holanda e Reino Unido também têm comunidades iranianas.

É raro ver imigrantes da república islâmica exercendo trabalho braçal. Casos como o dos dois rapazes que, numa aparente tentativa de migrar ilegalmente para a Europa usando passaporte falso, estavam a bordo do avião da Malaysia Airlines desaparecido não refletem o perfil dominante dos imigrantes iranianos.

Casamentos e laços sociais tendem a priorizar a comunidade, mas isso não impede iranianos de se adaptarem plenamente aos modos dos países onde se instalam. Se enturmam, trabalham e namoram locais com facilidade. Mesmos os mais religiosos tendem a viver sua fé de forma pacata, sem afã de sair por aí querendo converter todo mundo.

A diáspora reflete a diversidade étnico e religiosa do Irã. Há imigrantes persas, mas também curdos e turco-azeris. Muçulmanos são majoritários, mas Israel tem ao menos 135 mil cidadãos judeus de origem iraniana. Entre eles estão o ex-ministro da Defesa Shaul Mofaz e o ex-presidente Moshe Katzav, que trocou palavras em farsi com o então colega iraniano Mohammad Khatami durante o velório do papa João Paulo 2º, em 2005. O Brasil tem uma comunidade bahá’í ativa e altiva.

Apesar da quantidade significativa de iranianos que nunca mais voltaram após a revolução de 1979, a maior parte da diáspora mantem vínculos e visita o país. Voos em direção ao Irã vivem cheios de famílias com dupla cidadania.

Autoridades iranianas vêm tentando há anos atrair de volta os expatriados. A resposta foi modesta, mas é comum esbarrar em Teerã com iranianos que, após anos e até décadas no Ocidente, retornaram ao país para montar negócios.

Postado originalmente no BlogFolha.

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