O maior líder espiritual do Irã –


Publicado na Folha de São Paulo 22/07/2011


Medoly Moezzi – Para Folha de São Paulo

O "líder espiritual" do Irã oficialmente reconhecido hoje pode ser o aiatolá Khomeini, mas, durante centenas de anos anteriores ao establishment atual de mulás e aiatolás, os iranianos de todos os credos reconheceram outro líder espiritual: Jalal ad-Din Rumi.

Entre os iranianos, ele é o guia espiritual e guru cujas palavras encerram autoridade moral inigualada. Hoje, mais de 700 anos após sua morte, é quase impossível passar um dia caminhando por qualquer cidade, subúrbio ou vilarejo iraniano sem ouvir seu eco.

Suas palavras sobrevivem no discurso cotidiano -não importa sua posição na vida, religião ou ocupação, todas as pessoas no Irã conhecem pelo menos um punhado dos poemas de Rumi de cor.

Não existe melhor maneira de compreender essa influência que por meio da própria poesia de Rumi, embora ela em muitos casos desafie qualquer tradução fácil. Mesmo assim, os anglófonos contam com uma fonte maravilhosa de compreensão de Rumi -e do Irã- nas traduções de Coleman Barks, incluindo a seguinte:

"Hoje, como em todos os outros dias, acordamos vazios e temerosos. Não abra a porta para o estudo e comece a ler. Busque um instrumento musical. Permita que a beleza que amamos seja o que fazemos. Existem centenas de maneiras de ajoelhar e beijar o chão."

Compreenda esse poema e você compreenderá a alma do Irã -não apenas o papel da religião ou do dogma, mas o papel espiritual da fé, do amor e da beleza.

Ao mesmo tempo em que o Irã é um país de maioria muçulmana e que o xiismo é a religião oficial do Estado, o Irã não é definido pelo islã. Em lugar disso, é definido por seus povos, que são muçulmanos, judeus, bahá’ís, cristãos, agnósticos e ateus.

O Irã tem milhões de muçulmanos, mas também a maior população judaica de qualquer país de maioria muçulmana. Portanto, os iranianos sabem muito bem que há no mínimo centenas de maneiras de ajoelhar e beijar o chão.

Contudo, o regime iraniano mantém uma identificação intransigente com sua interpretação do islã e vem exercendo um papel forte em moldar a visão que o povo iraniano tem do islã e da religião em geral.

Assim, muitos iranianos se desiludiram com a religião.

Como iranianos jovens, vemos o fracasso do governo em garantir direitos iguais para as mulheres e percebemos que o regime esqueceu suas raízes. Nossos líderes vêm recorrendo a cassetetes, a balas e a gás lacrimogêneo.

A consequência é que as pessoas continuam a se afastar da religião organizada, especialmente do islã, porque viram como o regime manipula sua fé para oprimir a população e reprimir a dissensão.

Essa crescente repulsa coletiva à religião, contudo, encoraja a união de iranianos de todas as origens e crenças, sob os ensinamentos espirituais mais básicos e universais que Rumi e outros poetas sufistas captaram com tanto brilho: a noção de que a música, a arte, a poesia e o amor constituem nossos maiores recursos espirituais.

No Irã, tais recursos são mais abundantes que óleo, açafrão e pistaches reunidos e representam a fé mais verdadeira das massas.

Medoly Moezzi, irano-americana, é escritora e ativista. Este artigo integra a série "Religião e o espaço público", em colaboração com a Aliança de Civilizações da ONU e seu projeto "Global Experts". A opinião expressa é a dos autores, e não necessariamente reflete a da Aliança.

Tradução de Clara Allain

Fonte: Folha de São Paulo

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