Escola de Fantasia


A Escola de Fantasia
Ensino fundamentalíssimo!
Matrículas abertas. Vagas limitadas. 

By Vânia Marques Arruda Marcondes

Por volta dos 11, abri uma escola imaginária com misto de realidade. Herdamos móveis de escritório bem velhos de uma fábrica de roupas em falência. Cadeiras, escrivaninha… e uma máquina de escrever. D-a-t-i-l-o-g-r-a-f-a-r. Eu escrevia como quem cata milho. Quer dizer, um dígito por hora. A escola tinha tudo para funcionar bem. Matriculei três irmãozinhos: Elizabeth,que gostava de “grapete”, André, o calminho e Adriano, que quase foi envenenado por “Ki-suki” de morango anoitecido no sereno da meia noite. Daí sua personalidade eletrizante! Mas essa parte, vamos pular. (Ouvi dizer que Elizabeth virou enfermeira) Sei não se minha escola não contribuiu para isso. Nossas aulas eram nas horas vagas. Geralmente, à noite. Tinha quadro negro, giz e todo móvel de escritório, como já disse. Meu irmão também participava como aluno ouvinte. Ele era calmo, mas preguiçoooso pra estudar. Eu trabalhava muito na minha escola, cuja sala era no quintal, ao lado de mangueiras e coqueiros. Mas quando os alunos faltavam; tinha problema não. Eu lecionava para as paredes mesmo. Era uma sala lotada de alunos invisíveis. Ahhhhh…era uma aula tão tranquila….porém, eu logo me entediava com a turma invisível; então, chamava a gurizada de verdade, novamente. Só que tinha dias que os alunos visíveis estavam terríveis! Conversavam à beça, não queriam participar, não prestavam atenção nas minhas fabulosas questões de Gramática… Enfim, era uma baderna.

Elizabeth, que gostava de “grapete”, era comportadíssima. Talvez, por isso, virou enfermeira. Mas Adriano, o envenenado com “ki-suki”, perturbava toda a turma. Por isso mesmo, como castigo, eu passava muita tarefa. Você acha que eles faziam? Ai, ai ai… como poderia resolver esse problema pedagógico?

Hum! Tive uma idéia. Um belo dia, cansei de bancar a professora boazinha. E, aproveitando a visita da mãe deles em minha casa, apelei: – Dona Carmem Lúcia, gostaria muito de falar com a senhora.
-Sim, minha filha. Diga.
-É que seus filhos, principalmente, Adriano estão sem comportamento na minha escola. Não fazem tarefa, não participam das aulas, estão faltando muito….blá, blá, blá…. e rasguei os verbos que tanto queria ensinar para eles, gastando meu Latim, que tanto eu queria aprender. Abri meu coração de professora desiludida para dona Carmem Lúcia. Ela me ouviu atentamente, cada detalhe da minha queixa. Não que fosse realmente atenciosa, mas para ver até onde eu queria chegar. Quando eu terminei minha palestra, a senhora pegou a fala dela e me respondeu com tamanho descaso que jamais havia visto em toda minha vida de 11 anos.
– Olha, meu anjo, eu sei que você é bem esforçada, mas essa sua escola não é de verdade. É uma brincadeira. Tudo é fruto da sua imaginação.
-Ah, como assim?
– É. Meus filhos vêm aqui quando quiserem. Eles não têm obrigação nenhuma de fazer as tarefas da sua escola. Eles já estudam na escola deles, que é de verdade.
– Como assim? a minha escola não é de verdade?

Mais do que um balde de água fria, aquelas palavras foram pedradas de gelo na minha cabeça. Engoli seco, calei meu discurso, procurei as palavras no meu arquivo pessoal de centenas de vocábulos e não encontrei nada que pudesse ser útil a minha fala. Caí num vazio silencioso. Respirei fundo, me desanimei por dois eternos minutos… mas ergui a cabeça, depois de um golpe quase mortal com luvas de boxeador. Mas antes do juiz terminar de contar até dez, levantei a voz novamente e com postura de uma revolta reprimida e resignada, comentei depois de mais um suspiro: – Agora entendi porque tantos problemas na educação: ninguém leva nada a sério, nesse país!

Larguei minhas últimas palavras na sala de visitas e fui para o meu quarto. Deixei aquela vida de professora sem reconhecimento para entrar para o mundo do faz de conta: abri uma casa de espetáculos com bonecos fantoches de retalhos, confeccionado por mim e meu irmão. Por qualquer moedinha de centavos, as crianças entravam em nosso quintal para assistir nossas apresentações. Foi um sucesso de público e bilheteria!

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