Crise?! Que crise?


Uma análise sobre o consumo e a produção de alimentos no mundo

William Pesek:

14 de fev (Bloomberg) – Esqueça o Egito por um instante. Esqueça a crise da água na China. Ignore a angústia nas ruas de Bangladesh. Se você quer ver como o efeito dos crescentes preços dos alimentos está se tornando grave, olhe para o rico Japão.

Os aumentos são tão grandes que os economistas cogitam que eles podem empurrar o deflacionário Japão para a inflação. Sim, o aumento dos custos das commodities como trigo, milho e café pode fazer o que trilhões de dólares de liquidez do banco central não conseguiram.

Entretanto, as consequências econômicas dos preços dos alimentos empalidecem perto das sociais. As implicações não poderiam ser piores do que na Ásia, onde mora uma parcela importante daqueles que vivem com menos de 2 dólares por dia. Pode haver sérias implicações para a perspectiva de débito da Ásia. Pode haver consequências ainda maiores para os líderes que esperam manter a paz e evitar protestos em massa.

Que diferença podem fazer alguns meses. Lá por, digamos, outubro, as conversas eram sobre a invulnerabilidade da Ásia aos dissabores de Wall Street. Agora, os governos de Jacarta, Manila e Nova Déli estão às voltas com um tipo de crise imobiliária e financeira próprio. Ele reflete uma mistura tóxica de estoques de alimentos abaixo do desejável, explosão da demanda, clima em desequilíbrio e taxas de juros zero em todo o planeta.

Não é exagero quando Nouriel Roubini, o economista da Universidade de Nova York que previu a crise financeira americana, diz que a alta dos preços dos alimentos e da energia está provocando nos mercados emergentes uma inflação grave o suficiente para derrubar governos. Hosni Mubarak, no Egito, pode confirmar isso.

Efeitos colaterais

É importante começar a considerar os efeitos colaterais. As Nações Unidas calculam que os países gastaram pelo menos US$1 trilhão em importações de alimentos em 2010, os mais pobres pagando até 20 por cento mais do que em 2009. Esses aumentos estão só começando. Em janeiro, os preços mundiais dos alimentos alcançaram um novo recorde por conta da elevação dos custos de laticínios, açúcar e grãos.

Esta crise poderá levar a outra: a da dívida. É provável que os líderes asiáticos aumentem fortemente os subsídios e cortem os impostos de importação. As implicações fiscais dessas medidas não estão recebendo a atenção que merecem. Isso também é verdadeiro em relação aos riscos de instabilidade social. Os eventos no Egito são um exemplo explícito de como um povo que vive perto do limite pode rapidamente se mobilizar para exigir mudanças. Manter essa raiva reprimida na era do Twitter, do YouTube e do Facebook não vai ser fácil. Daí a preocupação de Roubini com a crise geopolítica.

Há uma extrema ironia na sincronia de tudo isso. Ocorre quando o mundo está se tornando um lugar mais pesado. Os índices de obesidade quase duplicaram desde 1980, e quase 10 por cento dos habitantes do planeta tinham sérios problemas de sobrepeso em 2008, de acordo com o jornal de medicina The Lancet. As pessoas nunca foram mais gordas e os preços dos alimentos nunca foram tão altos.

Mundo Gordo

A ocidentalização da dieta na Ásia tem uma parcela de responsabilidade na elevação dos custos dos alimentos. Crescimento rápido, renda em elevação, população crescente e urbanização conspiram para que se abandonem os hábitos alimentares básicos de antigamente e se passe a consumir mais carnes e laticínios.

As consequências negativas inerentes à mudança no padrão de consumo serão especialmente agudas nessa região. Diferentemente do pico no preço dos alimentos de 2008, este pode ser mais secular do que cíclico. Só a Ásia, por exemplo, terá mais 140 milhões de bocas a alimentar nos próximos quatro anos. Some-se a isso quase três bilhões de pessoas na região que cresce rapidamente e temos aí uma receita para a explosão da demanda.

O tamanho e o escopo da China indicam que ela comprará parcelas cada vez maiores da oferta de alimentos do mundo. À medida que o yuan se valorizar, crescerá também a capacidade da China de pagar mais do que todos os outros. O aumento nas tensões comerciais será inevitável e provará a futilidade dos subsídios aos alimentos. Os preços vão subir enquanto crescer o consumo, portanto, seria apenas jogar dinheiro pelo ralo.

A Fúria do Clima

A China também mostra como as mudanças climáticas vão dificultar a elevação nos padrões de vida. Secas acentuadas estão colocando em perigo as safras de trigo do maior produtor mundial. Estão provocando falta de água potável tanto para o 1,3 bilhão de habitantes da China quanto para seus rebanhos. É um lembrete de que a água é o petróleo de amanhã. Não vai demorar para que os governos revirem o planeta atrás dela.

Alimentos mais caros vão complicar as coisas para o banco central da China. Isso vale também para Índia, Indonésia, Filipinas e até economias menos desenvolvidas como Paquistão e Vietnã.

Para os bulls asiáticos, será uma amarga volta à realidade. Veja a Indonésia, a quarta nação mais populosa, com a maior população muçulmana. Alimentos mais caros dificultam o estabelecimento de padrões de vida mais elevados e a redução do abismo entre ricos e pobres. O mesmo vale para outros países nos quais o crescimento populacional com frequência supera o do produto interno bruto, como as Filipinas.

O que está inviabilizando as famílias que vivem com uns poucos dólares por dia é a volatilidade dos preços. Se você gasta quase metade da sua renda para encher barrigas, um aumento de 10 por cento no preço do óleo de cozinha, do trigo ou do pimentão é devastador. Já é difícil pagar o aluguel e manter os custos dos convênios médicos hoje em dia, que dirá investir em formação educacional.

Os governos precisam tratar de suavizar o golpe, mesmo que seja à custa de atormentar os executivos da Standard & Poor’s e da Moody’s Investors Service. Do contrário, terão nas mãos uma crise maior do que eleitores ou investidores conseguirão suportar.

(William Pesek é colunista da Bloomberg News. As opiniões aqui expressas são suas.)

Para contatar o autor desta coluna, William Pesek, em Tóquio: wpesek

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