Panela de pressão: da fervura à explosão


Panela de pressão: da fervura à explosão
A feijoada cultural e encontro das três
raças nos dois primeiros séculos da literatura brasileira
Por
Vânia Marques Marcondes
“Como
é possível que seres humanos lutem da manhã à noite, matando-se uns aos outros
e derramando o sangue de seus semelhantes? E para que finalidade? Para se
apossarem de uma parte da terra! Mesmo os animais, quando lutam, têm uma causa
imediata e mais razoável para seus ataques… A Terra não pertence a um só
povo, mas a todos os povos. Não é o lar, e sim o túmulo do homem. É por seus
túmulos que esses homens estão brigando.” Abdu’l-Bahá
Contendas,
massacres, conflitos e opressão foram alguns dos mais indigestos ingredientes
servidos cruelmente aos ameríndios ou autóctones, população que habitava um
vasto território, batizado com o  nome de
Brasil
O “paraíso tropical”, recém achado, teve suas primeiras impressões
descritas pelos escrivães da Corte, em cartas de cunho informativo. A exemplo
deste trecho:
“Porém
a terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados com os de
Entre-Douro e minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. ”
Mal se sabia que nas entrelinhas de tais textos informativos e
descritivos circulava uma lógica que movia as expedições européias: a busca e a
um jogo  o de interesse, cujas cartas de
mais valia eram a expansão e o poder, não importando às custas de quem ou de
quê.
A iguaria de sabor amaríssimo foi elaborada com requinte de
perversidade por colonizadores oriundos da península Ibérica. As referidas
expedições ultramarinas ampliavam o que chamamos hoje de globalização.Inicialmente,
tinha como antagonistas portugueses e espanhóis que mal sabiam governar sua
cozinha, mas achavam que podiam governar o mundo inteiro..
Seguindo, ainda a metáfora do
ambiente gastronômico, a parte da casa grande, ou seja, a cozinha fazia
correspondência às terras recém “achadas” por Cabral; cozinha com direito a
mais um cômodo – e que incômodo! – era a senzala.  E nesta arquitetura rodeada de “paraíso” que
enchia os olhos do freguês, surgem as primeiras manifestações literárias do descoberta
de outros mundos, movidas, sobretudo, pelo desejo ganancioso de conquista,
acúmulo de riquezas e terras, envolvendo Brasil. Em meio aos conflitos do bem
contra o mal, das disputas de terras, expansão mercantil e exploração da
mão-de-obra indígena e negra. Nessa luta desigual, os colonizadores brancos não
ofereceram nada aos povos encontrados, além do pão que o diabo amassou, em
forma de domínio e escravidão. Mas por outro lado, podiam se fartar com um rico
banquete, num diverso cardápio à moda da casa, que assim o diga Caminha:
As águas são muitas e infindas. E
em tal maneira é grandiosa que, querendo aproveitá-las tudo dará nela, por
causa das águas que tem.
Para dar conta desse
manancial de riqueza, os gentios não bastaram, e outra raça de gente teve que
ser importada do continente africano. Como se nesses, aí sim, fossem
aprimorados a cada dia, a crueldade. Movidos pelas ações imperialistas
colonizadoras, o branco não poupava nível de opressão quando assunto era o
acúmulo de riquezas. Daí, a origem do sofrimento de dois componentes distintos
da cultura brasileira (o índio e o negro), porém igualmente dominados e
massacrados, fosse pela violência física, fosse pela destruição de sua cultura.
Em meio a esse árduo panorama surge a nova nação brasileira e,
conseqüentemente, sua literatura. Sobre um solo fértil e riquíssimo, coberto
por uma selva de contradições e ambigüidades morais que serviam de pano de
fundo à educação ibérico-jesuíta, conforme Alfredo Bosi.4
Mas o caldo literário só foi engrossar mesmo, um século depois do
“achamento”, no período conhecido como Seiscentista, tomando consistência com
dois grandes destaques da época: Gregório de Matos Guerra (1640-1696) e Padre
Antônio Vieira (1608-1697). Ao primeiro,coube-lhe o papel de apimentar e mexer
de todas as formas, com as instituições e com os indivíduos formados às custas
de muitos paradoxos e contradições, estes, pregados à cruz cristã trazidos em
naus lusitanas. Nada, nem ninguém, escapou da pena do escritor baiano que
transitou, livremente, pelos estilos distintos de expressão literária:
satírico, lírico e sacro. O sarcástico Gregório ou “Boca do Inferno”, sua
alcunha, expôs a Bahia ao ridículo e não teve papas na língua para esquartejar
seus governantes contemporâneos e oferecê-los em postas ao leitor, como afirmou
Antônio Dimas.
“Que
falta nesta cidade?………Verdade
Que
mais por sua desonra……….Honra
Falta
mais que se lhe ponha………Vergonha
O
demo a viver se exponha,
Por
mais que a fama a exalta
Numa
cidade onde falta
Verdade,
Honra, Vergonha”
Em Gregório, o talento era bem farto. O mesmo “Boca” também esbanjava
lirismo, quando o assunto era amor:
“Ardor
em coração firme nascido!
Pranto
por belos olhos derramado!
Incêndio
em mares de água disfarçado!
Rio
de neve em fogo convertido! ”
Já o estilo sacro também fazia parte de seu repertório e, de uma mesma
pena, textos diversos compunham a obra deste autor, deixando no ar a impressão
de que, no mínimo, três Gregórios produziam a literatura da época:
“Ofendi-vos,
meu Deus, é bem verdade,
Verdade
é, meu Senhor, que hei delinqüido,
Delinqüido
vos tenho, e ofendido,
Ofendido
vos tem minha maldade. ”
Em Padre Vieira,
o diplomata, religioso, conselheiro de reis e rainhas, não caía-lhe bem se
indispor com os povos nem do velho, muito menos do novo mundo. E brilhantismo
não lhe faltou para tal. Contudo, o orador quis até o fim, conciliar o
irreconciliável; tal proeza não fora tarefa fácil para o jesuíta. E ele não
escapou às dores de uma congestão quando foi expulso pelos colonizadores, de
regiões onde fazia seu trabalho missionário. Vieira, assim como Gregório tinha
suas diversas facetas e contradições; ao mesmo tempo em que defendia a Coroa,
com seus sermões de incentivo à nobreza a pagar de tributos. Em tom persuasivo,
o jesuíta utiliza como recurso de ênfase, o leixa-pren,
neste trecho como exemplo:
“Por
uma omissão perde-se uma maré, por uma maré perde-se uma viagem, por uma viagem
perde-se uma armada, por uma armada perde-se um Estado: dai conta a Deus de uma
índia, daí conta a Deus de um Brasil por uma omissão. Por uma omissão perde-se
um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um
negócio, por um negócio perde-se um reino: daí conta a Deus de tantas casas,
daí conta a Deus de tantas fazendas, daí conta a Deus de tantas honras, por uma
omissão. ”
Vieira também recorria aos
ensinamentos universalistas de igualdade e fraternidade das Escrituras cristãs
que dava a entender, poderia redimi-lo pela parceria com a nobreza opressora e
desigual. É o que notamos nesse trecho de um dos seus mais de duzentos sermões:
“Quem
nos há de ir buscar um pote d’água, ou um feixe de lenha….?  responde virilmente: Quando a necessidade e a
consciência obrigam a tanto, digo que sim, e torno a dizer que sim; que vós,
vossas mulheres, que vossos filhos, e que todos nós nos sustentássemos dos
nossos braços…”(concisa, Bosi
)
Dos primeiros séculos da literatura brasileira à era da informação,
século 21, já se passaram pouco mais de 500 anos. O homem construiu e destruiu
muros, foi e voltou da lua, sofisticou a ciência e criou as mais incríveis
invenções jamais imaginadas. Das antigas caravelas, com as navegações
ultramarinas aos jatos supersônicos, o mundo “encolheu” numa velocidade
absurda, porém o que não muda são as dolorosas marcas que se arrastam em
pesadas correntes com a mesma lógica reinante do mercantilismo colonial. As
nomenclaturas mudaram, mas a força opressora do capital sustenta o culto
reinante ao individualismo, alimentado por forças culturais, ideologias
políticas, o elitismo acadêmico e a sociedade de consumo fez brotar um
sentimento de direito pessoal, pelo qual uma minoria se farta com um banquete
feito às custas de mão-de-obra da maioria explorada. E o mesmo cardápio servido
aos povos, desde a chegada dos colonizadores em terras brasilis insiste em compor a mesa dos grandes problemas sociais do
país. O reflexo de tais fatos estampam as páginas de impressos, seja em forma
de charge, com sátira sobre os conflitos pela reserva indígena, como ilustra o
jornal a Folha de São Paulo de 07 de maio de 2008, ou foto de trabalhador rural
no corte da cana-de-açúcar, como mostra o jornal A Folha Universal de 04  de maio do mesmo ano. Lembra-se da “rica
doçura” portuguesa, conforme Antonio Dimas), defendido com unhas e dentes pelos
colonizadores no Brasil do século XVII, cujo mote era “tomar dos índios, domar
os pretos, defender-se dos holandeses e garantir a produção do açúcar.” Ainda
carregamos, tais marcas coloniais e o rasto da exploração e comercialização do
açúcar brasileiro ainda percorre os canaviais espalhados pelo território. Já na
reportagem de Jânio de Freitas na Folha de São Paulo de 17/04/08 sobre
efetivação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima o lead comenta sobre a homologação das
referidas terras que funda-se na velha concepção de 500 anos atrás que trata o
índio como ser desprezível e afirma o quanto o indígena está aquém dos seres
beneficiados pela defesa da vida animal. Em outra reportagem do mesmo jornal,
mas do dia 29/04/08, uma questão que permeia a vida de cada cidadão, tal como o
ar que respira, o peso dos impostos. Com a manchete nada animadora “Brasileiro
trabalha metade da vida para fisco, diz estudo.” O jornalista Marcos Cézari
escreve sobre um estudo divulgado pelo IBPT (Instituto Brasileiro de
Planejamento Tributário), com base no aumento da carga tributária sobre renda,
patrimônio e consumo nos últimos 18 anos. Se em 1900, o brasileiro, com
expectativa de vida de 33,4 anos, trabalhava 43 dias  para pagar tributos, hoje é necessário
trabalhar 148 dias para pagar o fisco, claro que expectativa de vida do
brasileiro é bem maior que em 1900, de 72,3 anos, ou seja, 116% maior. Mas a
porcentagem de aumento de impostos é maior ainda, 244%, conforme a reportagem.
E o mesmo assunto também foi pauta dos sermões de Vieira. Assim como as mesmas
raças massacradas no passado, continuam no presente. De acordo com Gabriel
Marques, membro da ALARA(Afro Latin –American Research association), o resultado
da importação de escravos afrodescendentes, a maior de todo hemisfério
ocidental e a segunda maior do mundo, apenas menor que a população da Nigéria,
cerca de 80 milhões de pessoas, foi, desde então, deixada à margem da
sociedade, sem acesso à educação, se trabalho ou recebendo minguados salários.
Marques acrescenta que tais condições só propiciaram grandemente, um sistema de
injustiças sociais, internalizando-se de vez a discriminação com base na cor,
incrustada na alma e na cultura brasileiras.

Enfim, o panorama contemporâneo e pós-moderno, só me traz à mente os
destemperos dos inúmeros desajustes sociais, com raízes bem claras no processo
de colonização da América, como se do caldeirão de culturas e raças, surgisse
uma imensa panela de pressão, brutalmente manuseada pela força opressora. E que
mais cedo ou mais tarde, como conseqüência, poderá explodir em forma de guerra
civil, conflitos, contendas, miséria social, disputas por posse de terras,
massacres e violência, tudo isso, respondendo com ingredientes semelhantes aos que
compuseram, desde o início, um prato que poderia ser bem saboroso: a feijoada
cultural brasileira no encontro diversidade, do período colonial.
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Um comentário em “Panela de pressão: da fervura à explosão

  1. Olá professor,Sua escola realiza algum trabalho voluntário? Então participe do 9° Prêmio Escola Voluntária, da rádio Bandeirantes e da Fundação Itaú Social. Dez colégios, escolhidos por uma comissão julgadora, receberão a visita de um profissional da rádio Bandeirantes para ensinar aos alunos como fazer uma reportagem, que irá ao ar na própria rádio! Além disso, as dez escolas finalistas participam também de um grande encontro em São Paulo. E os vencedores ainda ganham muitos prêmios e reconhecimento da comunidade. Participe! As inscrições podem ser feitas através do site http://www.escolavoluntaria.com.br até o dia 30 de junho. Não perca!

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